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Laranjeiras, cidade que preserva o Patrimônio Histórico de Sergipe e retrata a cultura do estado

Situada a apenas 19 quilômetros da capital, Aracaju, a cidade de Laranjeiras, fundada em 1605, foi uma das primeiras vilas estabelecidas na região do Vale do Cotinguiba. É conhecida historicamente como a região do açúcar por ter concentrado no século XIX a maioria dos canaviais e engenhos do Estado de Sergipe

Publicação: 19/06/2024

Igrejas retratam a história e cultura de Laranjeiras

Situada a apenas 19 quilômetros da capital, Aracaju, a cidade de Laranjeiras, fundada em 1605, foi uma das primeiras vilas estabelecidas na região do Vale do Cotinguiba. É conhecida historicamente como a região do açúcar por ter concentrado no século XIX a maioria dos canaviais e engenhos do Estado de Sergipe, destacando-se, nas décadas de 1930, 1940 e 1950, três grandes usinas: São José Pinheiro, Varzinha e a Sergipe. Este município desempenhou um papel importante na economia, assim como na cultura sergipana até os dias atuais por suas tradições, festas populares, história e arquitetura colonial, que podem ser observadas nas ruas, casarões, igrejas e monumentos que respiram a essência do passado.

Com exemplos da arquitetura barroca e neoclássica, as construções em Laranjeiras refletem a riqueza cultural e econômica da região nos séculos XVIII e XIX. Preserva, inclusive, vivas as tradições culturais afro-brasileiras, que são celebradas e mantidas, a exemplo do Festival de Artes de Laranjeiras e as festas tradicionais, como o samba de pareia, reisado e lambe-sujo. Essas manifestações culturais atraem visitantes de todo o Brasil, assim como de outros países, promovendo um intercâmbio cultural valioso e contribuindo para a economia local por meio do turismo.

Laranjeiras abriga diversos edifícios coloniais que retratam a história e a cultura locais, a exemplo das igrejas e monumentos que fazem dela um importante polo turístico e cultural, preservando a memória e a identidade de Sergipe. As igrejas são os monumentos mais visitados, a exemplo da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, construída em 1734. É um dos principais símbolos religiosos da cidade, destacando-se pela arquitetura colonial; da Igreja do Rosário e São Benedito, construída por negros na metade do século XIX, reflete a forte influência da comunidade afro-brasileira na região; da Igreja Bom Jesus dos Navegantes, situada na entrada da cidade, que foi construída no início do século XX, entre outras. Conheça um pouco sobre as demais igrejas em Laranjeiras:

Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus

‘Coração primitivo’ que representa a primeira devoção na igreja

Do século XVIII, foi a partir dela que se deu início à formação urbana do município. É uma igreja dedicada ao Sagrado Coração de Jesus e foi a primeira construída no Brasil. Inclusive, está em pesquisa para ser confirmada se foi a primeira dedicada ao Sagrado Coração de Jesus no mundo. Está em atividade às terças, quintas, sábados e domingos quando são celebradas missas.

No interior dela, há um órgão (instrumento de teclado antigo), que foi doado pelo Barão de Maruim, altar-mor com imagens do século XVIII, além de imagens de devoção que, nas festas religiosas, saem em procissão. Na capela do Santíssimo Sacramento, existe um quadro da Santa Ceia pintado na tábua de madeira e, há dois anos, está em exposição o ‘coração primitivo’, símbolo em madeira, cujo coração está sob uma cruz e representa a primeira devoção na igreja e primeira dedicada no Brasil à padroeira de Laranjeiras, a Virgem da Conceição. Essa imagem, que é do século XVII, antes estava em exposição no Museu de Arte Sacra de Laranjeiras.

Igreja Nossa Senhora da Conceição da Comandaroba

Arcaz em madeira do século XVI

Conhecida pela fachada simples e bela ornamentação interna, foi edificada pelos padres jesuítas da Companhia de Jesus em Sergipe, no final do século XVII, quando eles chegaram à região e deram início ao trabalho de catequese e colonização dos índios tupi-guaranis e tupinambás.

A arquitetura dessa igreja é do estilo barroco, porém tem uma mistura de estilos arquitetônicos. O altar é em madeira de lei com elementos fitomórficos, cujas formas representam folhagens, e estão expostas as imagens de São Benedito, Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, São José e Santo Antônio. Na sacristia, há um arcaz em madeira do século XVI, que servia para guardar os paramentos dos jesuítas e todos os padres que vieram da Europa.

Essa é a única igreja da cidade que possui atrás do altar-mor um túnel com 1 quilômetro de extensão com acesso à gruta da Pedra Furada. Esse túnel foi perfurado pelos padres jesuítas para refugiá-los de invasores, principalmente das tropas de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, pois eles eram perseguidos por catequizar os índios clandestinamente e se apossarem de todas as terras do território do Brasil.

Curiosidade: o nome Comandaroba foi dado pelos jesuítas ao observarem plantações de feijão verde amargo na região onde foi edificada essa igreja.

Na Igreja Nossa Senhora da Conceição da Comandaroba, é celebrada missa para comunidade aos domingos, às 10h.

Igreja Senhor do Bonfim

Altar do século XVII, que foi transladado da Igreja Jesus Maria José

Do século XIX, possui arquitetura colonial e a imagem toda policromada do século XVIII de Nossa Senhora das Dores, além de outras imagens de devoção que saem para procissões. Em 1994, foi incendiada, e o altar foi todo destruído, ficando praticamente ruínas. Mas foi restaurada pelo Patrimônio Histórico de Sergipe, passando a ter um outro altar do século XVII, transladado da Igreja Jesus Maria José. O teto, que não foi atingido pelas chamas do incêndio, a pintura que representa céu aberto, feita por José Teófilo de Jesus, é um dos mais notáveis representantes da Escola Baiana de pintura da época.

Em 1837, o comendador major Augusto José Ribeiro Guimarães fundou a irmandade da Igreja Senhor do Bonfim composta por leigos que tinham como objetivo ajudar os membros e a comunidade. Ele também construiu um hospital e um cemitério que fica atrás da igreja e funciona até os dias atuais.

No último sábado de cada mês, é celebrada missa na Igreja Senhor do Bonfim, às 19h.

Igreja Senhora da Conceição dos Pardos

A Igreja do Galo possui apenas uma torre

Também conhecida como Igreja do Galo, é do estilo neoclássico e possui apenas uma torre. Atualmente, está em ruínas, mas preserva alguns elementos, como a fachada toda em pedra calcária, um galo em sua torre, símbolo de Portugal, e o frontispício trabalhado com azulejos portugueses.

Uma curiosidade: em 1860, quando Dom Pedro e Dona Teresa Cristina visitaram Laranjeiras, fizeram a doação de 500$000 (quinhentos mil réis) para o término da torre sineira desta igreja, pois, naquele período, pagava-se imposto em consonância com a quantidade de torres, mas, devido às dificuldades de verbas para esta finalidade, a edificação não tinha esse ornamento.

Centro Histórico

Trapiches do século XIX com calçamento pé de moleque e fachadas preservadas

Com ruas de paralelepípedo, o conjunto arquitetônico da cidade, que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), possui edificações que contam a história da cidade, como os Trapiches do século XIX, com calçamento pé de moleque e fachadas preservadas, onde, atualmente, funcionam outras atividades, como a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e o Mercado Municipal.

Casa de Cultura João Ribeiro

É um espaço voltado à pesquisa, onde se encontra todo o acervo do jornalista, crítico literário, filólogo, historiador, pintor, tradutor brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), João Ribeiro, que nasceu em Laranjeiras em 1860 e faleceu no Rio de Janeiro em 1934.

Neste museu, objetos que pertenceram a João Ribeiro

Além de objetos que pertenciam a ele, há diplomas, fotografias e alguns móveis que foram utilizados na época em que viveu nessa casa, que, antes de ser restaurada para se transformar em museu, foi sua residência.

Com acesso gratuito, a Casa de Cultura João Ribeiro funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 16h.

Museu de Arte Sacra

Museu está instalado em um imóvel do século XIX

O museu está instalado na antiga casa da família Lafayette Pimentel de Barros Franco. O imóvel do século XIX possui acervo que inclui uma vasta coleção de imagens sacras, mobiliário, documentos e porcelanas que datam dos séculos XVII ao XX, além de objetos ligados aos rituais religiosos, proporcionando aos visitantes uma imersão na rica tradição católica local. Em cada sala, um tema, entre eles, o da irmandade, dos oratórios, dos cônegos, dos passos e das porcelanas.

O museu está aberto de terça-feira a sábado, das 10h às 16h. E a entrada é o valor simbólico de R$ 6,00. Estudantes e adultos a partir dos 60 anos pagam meia-entrada (R$ 3,00).

Casa do Folclore Zé Candunga

Lambe-sujo e Caboclinhos, manifestação do folclore laranjeirense

Nela, tem tudo que se se refere à cultura, tradições e manifestações do folclore laranjeirense em homenagem a Zé Candunga, uma figura importante no folclore da cidade. A casa tem acervos de diversos grupos folclóricos da cidade, como o Batalhão, samba de coco, samba de roda, São Gonçalo e taieiras, além de manifestações como os reisados, o grupo Lambe-sujo e Caboclinhos, festa que acontece na primeira semana do mês de outubro.

Sala dedicada à religiosidade com objetos e fotografias sobre o grupo de penitentes

Também há uma sala dedicada à religiosidade, que apresenta objetos e fotografias referentes à manifestação secular do período colonial. Há o grupo de penitentes e a procissão do fogaréu, que são atos da preparação de tudo o que se refere à Semana Santa. Atualmente, conta com a exposição temporária dedicada aos santos do ciclo Junino (São João, São Pedro e Santo Antônio). O funcionamento é de terça a sexta, das 8h às 13h, e, aos finais de semana, das 8h ao meio-dia. A entrada é gratuita.

Casa do Artesanato

Espaço dedicado à preservação e promoção do artesanato local

Localizada no Centro de Tradições, é um espaço dedicado à preservação e promoção do artesanato local, destacando-se, principalmente, pela produção de renda irlandesa, um patrimônio cultural exclusivo de Sergipe. Lá, o visitante também encontra outros tipos de artesanato, como peças de madeira, artigos em crochê, biscuits, pinturas em tecido, entre outros.

Com o objetivo de contribuir para a sustentabilidade econômica da comunidade, a Prefeitura Municipal apoia os artesãos, fornecendo materiais para a confecção de peças, além de promover a venda dos produtos em feiras e eventos. A Casa do Artesanato funciona todos os dias (de domingo a domingo).

Comunidade quilombola em Laranjeiras

Gastronomia local é fortemente influenciada com pratos à base de frutos do mar

Conhecida pela herança cultural e histórica, a Mussuca é uma comunidade quilombola localizada em Laranjeiras, habitada principalmente por descendentes de africanos que foram escravizados. Ali, são preservadas as tradições culturais, religiosas e sociais que remontam aos tempos da escravidão.

A comunidade é famosa pelo ‘Samba de Parelha’, uma dança tradicional que representa a resistência e a identidade cultural dos quilombolas da Mussuca. Na comunidade, diversas manifestações culturais e folclóricas são mantidas, como festas religiosas e celebrações comunitárias sobre a cultura afro-brasileira.

A empresária Regina Santana, moradora da Mussuca

A gastronomia local é fortemente influenciada pela herança africana e pelas tradições locais com pratos à base de frutos do mar. A empresária Regina Santana, moradora da comunidade, figura ao lado do pai, ‘Cabecinha’. Ele empresta o nome ao restaurante que, desde 2017, é o mais destacado da região e conhecido pela culinária tradicional. Lá, o visitante pode se deliciar com iguarias, como caranguejo, aratu e, principalmente, as mariscadas e moquecas de peixe e camarão, e de outros frutos do mar. Além da unidade que funciona todos os dias, das 11h às 15h30, na Mussuca, também funciona uma filial no minishopping de Laranjeiras, de segunda a sexta, das 11h às 14h30.

Curiosidades

  • Além da cana-de-açúcar, Laranjeiras tinha uma importante atuação também na pecuária e na produção de coco e mandioca;
  • Laranjeiras abrigou a primeira Alfândega de Sergipe, pois o porto fluvial no Rio Cotinguiba era a porta de saída para quase toda a produção do estado;
  • Foi em Laranjeiras que surgiu a primeira escola de Sergipe, o Colégio Nossa Senhora Sant’Anna;
  • No período mais próspero, Laranjeiras efervesceu culturalmente com a chegada de três teatros, onde, além das produções nacionais, recebia espetáculos de grandes companhias francesas.

 

Fotos: Max Carlos/Setur