Categorias: Notícias

Estância: berço da cultura sergipana e pioneira do Ciclo do Fogo

O clima junino em Estância, a 70 km da capital, Aracaju, está enraizado em sua cultura popular durante todo o ano. Está evidenciado no Memorial da Cultura, que proporciona aos visitantes uma imersão na cultura local

Publicação: 15/05/2023

O clima junino em Estância, a 70 km da capital, Aracaju, está enraizado em sua cultura popular durante todo o ano. Está evidenciado no Memorial da Cultura, que proporciona aos visitantes uma imersão na cultura local através da exposição de obras dos artistas da terra, assim como a realização de diversas atividades que contribuem para o desenvolvimento e a apreciação das tradições. Um exemplo é a exposição permanente ‘Memorial do Fogo – O Ciclo do Fogo’, que tem em seu acervo elementos identitários da cultura junina, com mais de 30 peças entre quadros, indumentárias (chapéus de palha, vestidos caipiras e tamancos de madeira), buscapés, espadas, pitus de cano e barcos de fogo que contam a história do ciclo do fogo de Estância.

‘Cride Fogueteiro’ há 35 anos confecciona barcos de fogo

Com 35 anos dedicados à arte de produzir fogos de artifício e, de modo especial, barcos de fogo, Adenilson da Conceição, conhecido como ‘Cride Fogueteiro’, explica a forma artesanal como são confeccionadas as espadas. E questionado sobre o que define o prestígio de um fogueteiro, ele imediatamente responde: “Não dar chabu”. Essa expressão significa a espada ou buscapé estourar imprevistamente. “A fabricação destes artefatos se configura em um ato coletivo que envolve uma equipe composta pelo fogueteiro, mestre na arte de fazer fogo, e seus ajudantes. A produção é em grande escala envolvendo arte, técnica, química e, sobretudo, a produção do fogo de forma limpa, sem fumaça, afinal, é a etapa mais arriscada da fabricação dos fogos. Qualquer deslize na produção de fogo ou apenas faíscas podem levar ao chabu, causando a explosão”, destacou.

 

Etapas na confecção de espadas e buscapés

Espadas e buscapés

Tudo começa ainda no mês de dezembro, nas primeiras noites de noite lua cheia, quando os ‘mestres do fogo’ vão buscar os bambus para fazer o corte, colocá-los para secar, depois cozinhar, para, em seguida, serem cortados em tamanho específico e, só depois dessa sequência, vira a taboca. Inicia, então, o processo de enrolamento, que é o que dá sustentabilidade à taboca para que ela possa ser preenchida com barro e pólvora. Por fim, as tabocas são envolvidas num cordão encerado com cerol e preenchidas utilizando torniquetes que têm a finalidade de preencher a taboca com a marreta para colocar a boca de cor que dá o toque mágico: o efeito de luzes e cores.

Dentro do processo do corte do bambu, existem as cantorias chamadas de emboladas. Assim como está presente nas Batucadas durante todo o mês junino em Estância, que tem início no dia 31 de maio com a Salva, na abertura oficial do São João, esses versos ritmados existem também no Ritual do Pisa Pólvora.

 

Barco de fogo – maior expressão popular cultural de Estância

O Barco de Fogo é patrimônio cultural do povo sergipano, através da Lei 7.690, de 23 de julho de 2013. E a Lei nº 147, de 2017, concede ao município de Estância o título de Capital Sergipana do Barco de Fogo. Esse artefato é ligado ao ciclo junino e, de maneira expressiva, nos festejos populares da cidade. Sua confecção envolve artesanato, carpintaria e criatividade, transformando toda uma estrutura em madeira cortada milimetricamente em pedaços e marcada para encaixes e apregoamentos, tendo como matéria-prima uma madeira denominada paraíba, por possuir um peso relativamente leve e ter boa resistência. Papel celofane, papel seda, chuvinhas e espadas dão o toque final ao barco de fogo, que, depois de pronto, dá um espetáculo ao ‘navegar’ de um lado a outro através de uma roldana que desliza sobre o cabo de aço em uma distância que pode chegar até 300 metros de comprimento.

O dia 11 de junho é considerado como o Dia do Barco de Fogo, por ser a data de nascimento de seu criador, Chico Surdo. Inclusive, faz parte do calendário cultural do município de Estância, acontecendo nesta data a apresentação de 11 barcos de fogo em espaço público da cidade (Praça Barão do Rio Branco – Centro da cidade), despertando a curiosidade de quem passa pelo local e encantando visitantes que ficam fascinados com tamanha riqueza cultural, beleza e espetáculo.

 

Chico Surdo

Francisco da Silva Cardoso, mais conhecido como Chico Surdo, nasceu em Estância, no dia 11 de junho de 1907, no Bairro Botequim. Ele era funcionário público e exerceu a profissão de jardineiro, mas, nas horas vagas, costumava sair de barco para pescar. Ele queria ser marinheiro, mas não foi possível, devido à deficiência auditiva que o acometeu ainda jovem, vindo daí o apelido de ‘Chico Surdo’. Era um homem muito animado e gostava de festas, principalmente as festas juninas, que eram a sua paixão. Justamente nesse período, dedicava-se à fabricação de fogos de artifícios e a tão sonhada obra dele: o barco de Fogo.

A primeira tentativa de criar o barco de fogo foi através do experimento com uma espada correndo em um fio de arame. Depois, criou um barquinho de papelão e fixou nele as espadas, ornamentou e pendurou no fio de arame para que deslizasse. Foi aí quando percebeu que o papelão era muito leve para uma estrutura mais acertada que o deixasse no peso ideal para uma apresentação perfeita, dando origem, então, ao barco de fogo.

 

Curiosidades na confecção do barco de fogo

– Os barcos de fogo podem ter o peso de até 20kg;

 A quantidade de espadas que dão o impulso de ir e voltar no arame varia de quatro a 12 unidades, distribuídas nas duas extremidades do barco;

– A quantidade de chuvinhas e pistoletes também varia de oito a 12 de cada;

– Em média, o tempo para a confecção de um barco de fogo é de um dia.